"Arte é forma de enfrentar", diz reeducanda que lança livro de poesia
Em primeira obra publicada, Luana do Amor Divino transforma vivências em versos, em busca por mudança e autoconhecimento.
Da Redação
terça-feira, 18 de março de 2025
Atualizado às 08:56
A experiência de internação no CASE - Centro de Atendimento Socioeducativo de Luziânia/GO tornou-se inspiração para a expressão artística de Luana do Amor Divino, jovem de 18 anos que, enquanto cumpria medida socioeducativa, encontrou na poesia forma de traduzir sentimentos e reflexões.
Nesta terça-feira, 18, ela lança, no Fórum de Luziânia, seu primeiro livro: "Quem diria, do CASE à poesia!", uma coletânea de versos que narram a trajetória e as transformações da adolescente.
"É uma forma de expressar o que senti, porque não consigo falar, mas escrevendo eu consigo me expressar", revelou Luana.
As inspirações para seus poemas surgiram da vontade de mudar e da dor ao ver o sofrimento da mãe. "Eu quis mudar bastante. Fui vendo o que podia melhorar. Aqui dentro, passa um filme do que acontece. A gente procura um meio de não se sentir tão sozinha, e escrever alivia", relatou.
Para ela, a poesia se tornou um refúgio e uma maneira de enfrentar desafios. "A arte, para mim, é uma forma de resistência", enfatizou.
A obra será disponibilizada para venda na Amazon, e Luana acredita que poderá inspirar outras pessoas. "Acho que meu livro vai trazer inspiração. Pela história, eu acho", disse.
Na entrevista, destacou seu poema "Morte", o primeiro que escreveu, dedicado ao pai, falecido três meses antes da internação.
Goiana e irmã de cinco, Luana gosta de ouvir sertanejo, assistir a filmes de ação e ler romances. No CASE, frequenta a biblioteca local, onde teve contato com diversos livros, sendo "Melancia", de Marian Keyes, o último que leu.
Nesta terça-feira, 18, Luana marcará um novo capítulo de sua história, e adiantou que a jornada literária não para por aqui.
"Tenho páginas que não entraram no livro, já estou preparando o segundo", contou, acrescentando que deseja concluir os estudos e cursar Letras.
Leitura e escrita que transformam
Luana encontrou apoio no projeto "Eu Leitor, Eu Escritor, idealizado pela agente do sistema socioeducativo, pedagoga e mestranda Josélia Macedo, e desenvolvido no CASE de Luziânia/GO. O projeto tem sido um instrumento fundamental na ressocialização de adolescentes em medida socioeducativa.
A iniciativa utiliza livros, filmes e documentários para promover reflexão e aprendizado, abordando temas diversos, como política, história, entretenimento e religião.
A agente socioeducativa e assistente social Elcimar Salomão, que também integra o projeto, explica que "o projeto existe há mais de seis anos e trabalha a perspectiva do autoconhecimento, ajudando os adolescentes a refletirem sobre quem são, onde estão e aonde querem chegar".
A abordagem do projeto vai além da simples oferta de livros. O objetivo é criar uma conexão com os jovens e fazê-los compreender a importância da leitura e da escrita em suas vidas.
"Quando um adolescente chega à unidade, buscamos conhecê-lo, entender seu histórico e criar um vínculo. Não chegamos simplesmente apresentando um projeto. É um processo gradual", explica Elcimar.
A produção do livro de Luana levou cerca de nove meses e contou com intenso trabalho de orientação e estímulo à escrita, promovendo um impacto que vai além das páginas.
O impacto do "Eu Leitor, Eu Escritor" já pode ser visto em outras trajetórias. Em 2022, o projeto foi responsável pelo lançamento do livro de outro jovem, à época com 17 anos.
Durante a internação, ele começou a escrever sua própria história e recebeu apoio da equipe socioeducativa para finalizar, editar e publicar a obra.
O livro, intitulado "O Príncipe das Grades: Um relato de experiência na socioeducação", tem 70 páginas e foi ilustrado pelo próprio autor.
Na obra, ele compartilha relatos sobre a descoberta do verdadeiro pai quando era criança, sua relação com os patrões do tráfico e a luta contra a dependência química.
Além de incentivar a literatura, o projeto também atua na alfabetização de adolescentes que chegam ao sistema sem saber ler ou escrever e os prepara para exames como o Enem - Exame Nacional do Ensino Médio, ampliando oportunidades no mercado de trabalho após a desinternação.
"O estudo é tudo. Nosso objetivo é que eles possam enxergar além do espaço onde estão. Muitos chegam sem perspectivas, mas ao longo do tempo, conseguimos ajudá-los a identificar seus potenciais e a vislumbrar um futuro diferente", reforça Elcimar.