
A famosa expressão sobre a mulher de César nasceu de um episódio ocorrido em Roma, em 62 a.C., envolvendo Pompeia, então esposa de Júlio César. Durante uma cerimônia religiosa reservada exclusivamente às mulheres, o aristocrata Públio Clódio Pulcro entrou disfarçado na casa de César. Suspeitava-se que pretendia encontrar Pompeia, com quem teria um caso.
Nada foi provado contra ela. Ainda assim, César se divorciou. Chamado a depor no julgamento de Clódio, afirmou não saber de coisa alguma. Perguntado, então, por que deixara a esposa, teria respondido, segundo a tradição: "À mulher de César não basta ser honesta; deve parecer honesta".
A história, porém, reservou uma pequena travessura. Poucos anos depois, César passou a colaborar politicamente com o próprio Clódio. Em 59 a.C., com o apoio de Pompeu, facilitou sua adoção por uma família plebeia, manobra que permitiu ao aristocrata concorrer ao tribunato da plebe. Eleito no ano seguinte, Clódio tornou-se útil aos interesses de César, Pompeu e Crasso, apoiou medidas favoráveis ao grupo e perseguiu adversários, sobretudo Cícero, que acabou exilado.
Ao que tudo indica, portanto, César não repudiou Pompeia por considerá-la culpada, mas para proteger a própria imagem. Mais tarde, quando Clódio se revelou politicamente conveniente, o rigor moral ganhou contornos mais flexíveis.
Em termos menos romanos: à mulher de César não se permitia sequer a suspeita; aos aliados de César, desde que úteis, concedia-se uma generosa elasticidade ética.