Bistrô no lugar do bicicross? O que vem depois? Um shopping no Parque Jaqueira?
A proposta de substituir a pista de bicicross do Parque da Jaqueira por um restaurante gera preocupações ambientais, sociais e esportivas, ameaçando a identidade e acessibilidade do espaço público.
terça-feira, 18 de março de 2025
Atualizado em 17 de março de 2025 15:20
O Parque da Jaqueira, um dos espaços públicos mais emblemáticos do Recife, desempenha um papel essencial na promoção do lazer, do esporte e da convivência comunitária. Situado em uma área estratégica da cidade, destaca-se como um dos poucos refúgios verdes acessíveis à população, oferecendo um ambiente propício para caminhadas, corridas, ciclismo, skate e outras atividades ao ar livre. É um espaço dinâmico, inclusivo e, acima de tudo, democrático.
Diante desse contexto, a proposta de substituir a pista de bicicross por um restaurante levanta preocupações legítimas1. Longe de representar um avanço, a mudança pode ser vista como um retrocesso sob diversos aspectos. Para compreender a dimensão desse impacto, é fundamental analisar questões como o meio ambiente, a preservação da identidade do parque, o incentivo ao esporte, e principalmente, as necessidades reais dos frequentadores.
Afinal, parques urbanos são, antes de tudo, espaços voltados ao lazer, à conexão com a natureza e à prática esportiva. Quando um local como o Parque da Jaqueira cede espaço a empreendimentos comerciais, ainda que sob a justificativa de melhorias na infraestrutura, corre-se o risco de comprometer sua essência. O parque não é apenas um recanto verde na cidade; é um ponto de encontro, um local onde a vida urbana desacelera e as pessoas se reconectam umas com as outras e com o ambiente ao redor.
Além disso, a instalação de um restaurante exigiria obras estruturais que inevitavelmente impactariam o meio ambiente. O aumento das áreas cimentadas alteraria a drenagem natural do solo, podendo agravar problemas como alagamentos. Sem falar nos impactos indiretos: mais geração de resíduos sólidos, maior consumo de energia para refrigeração e climatização, afetando a qualidade do ar. Tudo isso vai na contramão da sustentabilidade, princípio que deveria nortear qualquer intervenção em um parque público.
Outro ponto central é a importância da pista de bicicross. Embora atenda a um público específico, sua relevância dentro do universo dos esportes radicais é inegável. Trata-se de um espaço seguro e adequado para a prática do ciclismo, modalidade que requer infraestrutura própria para manobras e treinos. Em uma cidade como Recife, onde já há escassez de locais apropriados para esses esportes, a remoção da pista significaria privar atletas e entusiastas de um ambiente essencial para seu desenvolvimento.
Mas a questão vai além. O bicicross não é apenas uma atividade recreativa; é um estilo de vida, uma ferramenta de inclusão social e um antídoto contra o sedentarismo. Esportes radicais abrem portas para um estilo de vida vibrante e equilibrado, orientando os jovens para escolhas enriquecedoras e inserindo-os em uma comunidade engajada e inspiradora. Trocar a pista por um restaurante inverteria essa lógica, promovendo um modelo de lazer passivo, voltado ao consumo, em detrimento da prática esportiva e do bem-estar físico.
Outro ponto de alerta é a crescente mercantilização dos espaços públicos. O Parque da Jaqueira, por sua natureza, deve continuar acessível a todos, sem barreiras econômicas que limitem sua frequência. A presença de um restaurante inevitavelmente transformaria a relação dos visitantes com o local, priorizando o consumo como forma de interação. Ainda que a conveniência de um estabelecimento comercial possa parecer atraente, é preciso refletir sobre os impactos sociais dessa decisão. Dependendo do público-alvo do restaurante, poderíamos assistir à exclusão de determinados grupos, convertendo um espaço democrático em um ambiente segregador.
Além disso, a privatização progressiva do parque levanta preocupações sobre o futuro do espaço. Se hoje se permite um restaurante, o que impedirá novas concessões comerciais amanhã? Esse precedente pode abrir caminho para uma ocupação predatória, comprometendo a identidade do Parque da Jaqueira como um dos últimos redutos verdes da cidade.
Sob o ponto de vista econômico, a instalação do restaurante também gera dúvidas. Recife já conta com uma vasta oferta de bares, cafés e restaurantes em áreas próximas ao parque, o que levanta a questão: há, de fato, demanda para mais um estabelecimento desse tipo?
Por fim, resta a dúvida mais importante: essa mudança atende aos interesses da população que frequenta o Parque da Jaqueira? Estudos sobre o uso de espaços urbanos mostram que os frequentadores valorizam áreas verdes, trilhas, equipamentos esportivos e locais de convivência ao ar livre. A introdução de um restaurante não apenas se distancia dessas prioridades, como pode até afastar parte do público que busca um ambiente mais natural e interativo.
Diante de todos esses aspectos, a substituição da pista de bicicross por um restaurante se revela uma proposta problemática, com mais desvantagens do que benefícios. Do impacto ambiental à descaracterização do espaço público, da exclusão social à incerteza econômica, a mudança parece destoar da verdadeira vocação do parque. Qualquer intervenção em um espaço público deve, antes de tudo, considerar as reais necessidades da comunidade e os princípios de acessibilidade, sustentabilidade e bem-estar coletivo.
O Parque da Jaqueira precisa continuar sendo um espaço democrático, voltado à saúde, ao esporte e ao convívio social. Preservar a pista de bicicross não significa barrar o desenvolvimento, mas garantir que ele ocorra de forma coerente e alinhada com sua função essencial: ser um ambiente vivo, inclusivo e verdadeiramente público.
_______________
1 https://marcozero.org/pista-de-bicicross-da-jaqueira-esta-com-os-dias-contados/
Adalberto Arruda Silva Júnior
Advogado associado do Nelson Wilians & Advogados Associados.