Em busca de tecnologias mais sustentáveis
O Global Risks Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, alerta para riscos tecnológicos como desinformação e ciberespionagem, além dos desafios éticos da IA.
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025
Atualizado em 21 de fevereiro de 2025 09:12
Considerado um relatório de referência, publicado pelo Fórum Econômico Mundial, o Global Risks Report 2025 mapeia as principais ameaças globais, revelando uma preocupação crescente com os impactos da tecnologia na sociedade, especialmente no que tange à IA - Inteligência Artificial e suas aplicações.Dois riscos tecnológicos se destacam entre os mais dez mais críticos: a desinformação e a ciberespionagem. A desinformação, ocupando a quinta posição no ranking geral, emerge como uma ameaça imediata à estabilidade social e política global. Este risco é particularmente amplificado pelo desenvolvimento acelerado de ferramentas de IA generativa, que podem criar e disseminar conteúdo falso ou enganoso em escala sem precedentes.
A ciberespionagem e a guerra cibernética, por sua vez, figuram como o nono risco mais severo no curto prazo. Este posicionamento reflete a crescente sofisticação das ameaças digitais e a vulnerabilidade das infraestruturas críticas globais. A publicação destaca que a combinação entre tensões geopolíticas e avanços tecnológicos têm criado um ambiente propício para o aumento de ataques cibernéticos estatais e não-estatais.
Quando a análise se estende para um horizonte de dez anos, até 2035, o panorama dos riscos tecnológicos se modifica significativamente. Os resultados indicam uma preocupação mais acentuada com os impactos adversos da IA, que surge como o sexto risco mais severo na década. Esta escalada na classificação sugere que, embora a IA não seja vista como uma ameaça imediata, existe um reconhecimento crescente de seus potenciais efeitos disruptivos a longo prazo.
O relatório evidencia uma mudança importante na percepção dos especialistas sobre os riscos tecnológicos. Se no curto prazo as preocupações se concentram em ameaças mais tangíveis e imediatas, como desinformação e ciberataques, no longo prazo emerge uma apreensão mais profunda sobre as implicações estruturais do desenvolvimento tecnológico acelerado. Esta evolução na percepção de riscos não é acidental. Além disso, o documento destaca que o ritmo sem precedentes do desenvolvimento tecnológico, especialmente em áreas como IA, biotecnologia e computação quântica, está ultrapassando a capacidade das sociedades e instituições de se adaptarem e estabelecerem marcos regulatórios adequados.
Um aspecto particularmente preocupante é a interseção entre diferentes categorias de riscos. Por exemplo, a tecnologia aparece como um potencial amplificador de polarização social, outro risco proeminente identificado no relatório. As plataformas digitais e algoritmos de IA podem criar câmaras de eco e bolhas informacionais, exacerbando divisões sociais existentes e dificultando o diálogo construtivo entre diferentes grupos. Também chama atenção para a necessidade de uma governança tecnológica mais robusta. A ausência de frameworks regulatórios globalmente coordenados para tecnologias emergentes é apontada como um fator que pode amplificar os riscos identificados. Esta preocupação é particularmente relevante no contexto da IA, onde diferentes jurisdições estão adotando abordagens divergentes para regulamentação.
A questão da segurança cibernética permanece central nas preocupações de longo prazo, mas com uma mudança de enfoque. Se no curto prazo, o foco está em ataques e espionagem, no horizonte de dez anos a preocupação se expande para incluir a resiliência das infraestruturas digitais críticas e a capacidade de proteger sistemas cada vez mais complexos e interconectados. A dimensão ética do desenvolvimento tecnológico também ganha destaque no relatório. A preocupação com os impactos adversos da IA não se limita a questões técnicas ou de segurança, mas abrange também considerações sobre equidade, transparência e responsabilidade no desenvolvimento e implantação de sistemas automatizados.
Um aspecto fundamental destacado é a necessidade de desenvolver tecnologias de forma mais inclusiva e sustentável. O relatório sugere que a concentração do desenvolvimento tecnológico em poucos atores globais pode exacerbar desigualdades existentes e criar novos pontos de vulnerabilidade no sistema global. A interação entre riscos tecnológicos e ambientais também merece atenção especial. O consumo energético crescente das infraestruturas digitais, particularmente em áreas como computação em nuvem e mineração de criptomoedas, é apontado como uma preocupação significativa em um contexto de crise climática.
Fica enfatizada, pela leitura do documento, a importância de uma abordagem proativa na gestão destes riscos. Em vez de reagir a crises à medida que elas emergem, é necessário desenvolver mecanismos de antecipação e mitigação de riscos tecnológicos, especialmente considerando a velocidade com que novas tecnologias são desenvolvidas e implementadas. A educação e o desenvolvimento de competências digitais surgem como elementos cruciais para enfrentar estes desafios. A capacidade das sociedades de se adaptarem a mudanças tecnológicas rápidas dependerá fundamentalmente do investimento em capital humano e da democratização do conhecimento tecnológico.
A dimensão internacional dos riscos tecnológicos também é destacada. A natureza global da tecnologia moderna significa que respostas efetivas aos riscos identificados requerem cooperação internacional significativa, mesmo em um contexto de crescentes tensões geopolíticas. O gerenciamento efetivo dos riscos tecnológicos nas próximas décadas exigirá um equilíbrio delicado entre inovação e precaução. Será necessário fomentar o desenvolvimento tecnológico que pode trazer benefícios significativos para a humanidade, ao mesmo tempo em que se estabelecem salvaguardas adequadas contra seus potenciais impactos negativos.
A análise do Global Risks Report 2025 deixa claro que os próximos anos serão cruciais para determinar como a sociedade global lidará com os desafios tecnológicos emergentes. A capacidade de antecipar e gerenciar estes riscos, mantendo ao mesmo tempo o impulso da inovação tecnológica, será um dos principais desafios para líderes globais, formuladores de políticas e sociedade civil nas próximas décadas. Serve como um alerta importante sobre a necessidade de ação coordenada e preventiva no campo da tecnologia. As decisões tomadas hoje sobre governança tecnológica, regulamentação e desenvolvimento de capacidades terão impactos duradouros na forma como navegaremos os desafios tecnológicos do futuro. A construção de um futuro tecnológico mais seguro e equitativo dependerá da nossa capacidade de aprender com as lições do presente e agir proativamente para mitigar riscos emergentes.
Adalberto Fraga Veríssimo Junior
Sócio e Data Protection Officer da Lee, Brock, Camargo Advogados, Mestrando em Direito pelo IDP, Pós-Graduado em Direito Digital e Proteção de Dados pela EBRADI.