sábado, 4 de julho de 2020

ISSN 1983-392X

Papel da família diante da dependência química

Clarice Maria de Jesus D´Urso

A questão do uso abusivo de substâncias psicoativas já é considerado um problema de saúde pública mundial e é na adolescência, considerado um período de experimentação, que os jovens buscam a experimentação e uso de drogas por entenderem que ajudam a lidar com a situações problemáticas da vida e de autoafirmação social.

terça-feira, 30 de junho de 2020

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É cada vez mais preocupante a precocidade com que o uso de drogas  entra na vida de adolescentes. No Brasil, estudo da Sociedade Brasileira de Pediatria, do ano passado, aponta um crescimento de 41% na hospitalização de crianças e adolescentes, na faixa etária de 10 a 14 anos, por uso de substância psicoativas (maconha, alucinógenos, ansiolíticos, sedativos, tabaco, etc.).

Os alertas têm razão de ser porque o percentual do consumo de drogas entre jovens cresceu muito no Brasil e as famílias precisam ficar atentas porque é nessa fase da vida que os filhos ficam mais vulneráveis. Desde a década de 80, o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas da Universidade Federal de São Paulo tem documentado tendência de crescimento do consumo entre adolescentes.

A questão do uso abusivo de substâncias psicoativas já é considerado um problema de saúde pública mundial e é na adolescência, considerado um período de experimentação, que os jovens buscam a experimentação e uso de drogas por entenderem que ajudam a lidar com a situações problemáticas da vida e de autoafirmação social, principalmente nos grupos de amigos.

O uso intensivo de substâncias psicoativas  provoca prejuízos à saúde  que, muitas vezes,  tornam-se irreversíveis. As drogas aumentam os riscos de acidentes e violência e enfraquecem os cuidados de autopreservação dos jovens. E, no caso do álcool, pode causar intoxicação grave e crise convulsiva. As drogas, como cocaína e as anfetaminas, podem causar isquemia cardíaca e cerebral e quadros de transtornos psiquiátricos.

A dependência química constitui um grande desafio para as famílias, que possuem um papel fundamental no desenvolvimento saudável de todos os seus membros. É na família que, inicialmente, se manifestam os fatores de risco à drogadição. Por isso, é importante que a família fique atenta à rotina do adolescente, sem esquecer que a conduta e o exemplo dos pais são fundamentais para evitar que os adolescentes se afastem da família e se sintam inseguros. Em grande parte, o uso de substâncias psicoativas é impulsionado por questões emocionais, envolvendo depressão, ansiedade e baixa autoestima.

Os pais não devem temer falar com seus filhos sobre os supostos prazeres que as drogas possam momentaneamente causar, mas devem sim, destacar os prejuízos provocados como dependência física e psicológica, inclusive do álcool e cigarro. Pontuar que nem tudo que parece ser prazeroso é saudável. A obrigação da família é conversar e alertar ao adolescente sobre os perigos das drogas, tal conversa deve ser sem drama, com naturalidade, realismo, confiança e autoridade. Os filhos esperam dos pais um diálogo sincero, aberto com compreensão e carinho.

Frases ofensivas ou lamúrias nessa hora podem influenciar de forma negativa e criar uma barreira, entre pais e filhos. Nunca diga ao filho que ele é um inútil, que nunca seria nada na vida, que ele é uma vergonha para a família. As palavras machucam e abrem feridas de difícil cicatrização e pode piorar esta difícil situação. A auto-estima desse dependente químico, naturalmente é baixa, sua dignidade pessoal esta comprometida, neste sentido não existe necessidade de os pais estigmatizar e humilhar esse jovem.

Cabe aos pais do dependente de drogas a compaixão e a compreensão para com esse filho. Não ache que vai resolver o problema fazendo ameaças como “se você não parar vou expulsá-lo de casa, ou interna-lo em hospitais psiquiátricos, chamar a polícia ou ainda denunciar seus amigos” o caminho não é esse, primeiro passo converse com seu médico de confiança, peça orientação profissional, sobre clínicas, serviços especializados para tratamento e recuperação adequada, nessa hora o apoio de toda a família é fundamental.   

Os pais devem ser os modelos para os filhos e nunca os opressores ou carrascos, ensinar aos filhos o certo e o errado por meio dos exemplos. Fortalecer a auto-estima e o caráter desses jovens para que possam resistir à pressão do mundo das drogas. Os pais devem conhecer os amigos dos seus filhos, saber onde os locais que eles frequentam e observar os sinais e reagir prontamente quando necessário.

Estudos demonstram que nas famílias em que o problema do alcoolismo se registra, isso serve de elemento facilitador para o consumo precoce de drogas lícitas e ilícitas por parte dos filhos. Portanto, a conduta dos pais não pode constituir um fator de risco. Além do exemplo, devem buscar superar os problemas de relacionamento com os filhos, impor limites, evitar conflitos continuados, dificuldades de comunicação, falta de orientação e apoio nas relações familiares. É, portanto, na família que os valores e condutas são consolidados e o diálogo com os filhos ajuda na prevenção ao uso de drogas. Por isso nossa campanha “Pais Contra as Drogas” começa no seio familiar.

É fundamental que as famílias busquem identificar os adolescentes de risco em função do uso de drogas. O custo familiar e social da dependência química é altíssimo. E este objetivo só é alcançado com amor, carinho, compreensão e muita conversa.

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t*Clarice Maria de Jesus D'Urso é bacharel em Direito com especialização em Direito Penal e Processo Penal. Conciliadora na área da família pela Escola Paulista da Magistratura do Estado de São Paulo. Membro da Associação Brasileira das Mulheres de Carreiras Jurídicas - ABMCJ. 

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