quarta-feira, 20 de maio de 2020

ISSN 1983-392X

Marizalhas
Antônio Claudio Mariz de Oliveira

Advocacia risonha e franca

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Eles praticavam uma advocacia que se pode chamar de artesanal. Redigiam, batiam à máquina, iam diariamente ao fórum e às delegacias de polícia, pesquisavam jurisprudência nas várias publicações específicas, instruíam-se com a doutrina haurida dos inúmeros compêndios de suas bibliotecas, ou nas de colegas.

Nos seus escritórios, desempenhavam funções que hoje são da atribuição de secretárias, estagiários, office boys, telefonistas, digitadores, arrumadeiras e algumas outras.

Por outro lado, não havia na advocacia, mormente a do interior, a especialização. Eram, em regra, "clínicos gerais", pois atuavam em todas as áreas do Direito.

Os honorários, bem, os honorários constituíam um capítulo à parte. Cobrava-se, mas raramente um advogado deixava de assumir uma causa por razões relacionadas à sua remuneração. Os clientes pagavam como podiam, mas em regra pagavam.

O pagamento, especialmente aos colegas do interior, no entanto, nem sempre era em dinheiro. Muito, mas muito comum mesmo, os honorários serem saldados por meio da dação de algum animal ou ave. Galinhas e porcos faziam às vezes de moedas de troca, com muita frequência. Havia ainda, verduras, hortaliças, queijos, goiabadas, cachaça. Diga-se, sempre de excelente qualidade.

Em regra, essa forma de saldar os honorários era sempre acompanhada de um ingrediente que obrigava os advogados a aceitá-la: a gratidão. A maneira mais eficaz e eloquente de demonstrarem o seu agradecimento pelo empenho e pela dedicação dos bacharéis era a entrega de algo que lhes era caro. E, veja-se que em certas regiões, para sitiantes e agricultores, como eram valiosas as galinhas, os porcos, as verduras e as hortaliças.

Essas eram algumas das características da advocacia de anos atrás.

Outra marca daquela época, era a ampla cultura humanística dos profissionais do direito. Mercê de um largo cabedal de conhecimentos e da rica experiência humana que a profissão ainda proporciona, eram eles dotados de espírito refinado, aguçado senso crítico, humor sutil e elegante e uma tendência para extrair dos fatos da vida o seu lado pitoresco e por vezes hilário.

Um significativo episódio bem ilustra o senso de humor, a ágil inteligência e a maravilhosa capacidade de rir de si mesmo de um veterano advogado do interior do Estado, da cidade de Barretos.

Uma longa fila se formara para o acesso ao caixa do banco. Ao lado dessa, havia uma outra sem uma viva alma. Segundo o aviso ela se destinava aos deficientes, enquanto aquela às pessoas sãs.

O advogado Kalil Salles, como de hábito, trajado com esmero, sorriso aberto e com o seu permanente ar de superioridade, não a pseudo superioridade dos arrogantes e dos presunçosos, mas daqueles que encaram a vida com complacência e com bonomia, olhou a longa fila e dirigiu-se ao outro guichê.

Todos os clientes do banco que estavam na fila à unanimidade gritaram "saia daí Dr. Kalil e venha para o fim da nossa fila. O senhor não é deficiente".

Em face do clamor geral, o sagaz, irônico e espirituoso velho advogado reagiu, defendendo-se:

"Por acaso há deficiência maior do que a BROCHURA?"

Com certeza mentiu, ao se atribuir uma particularidade inexistente. Mas, não se importou em negar a sua virilidade para ser atendido com rapidez. Afinal, pouco se lhe dava acreditarem ou não em sua patética confissão.

Kalil, atualmente, está em outras e melhores paragens. Também lá não ficou na fila. Foi acolhido de pronto pelo Anfitrião, e com ele vive tempos novos, novos e eternos, pronto para receber cada um de nós na hora certa, e aí sim, em obediência à fila...

Antônio Claudio Mariz de Oliveira

Antônio Claudio Mariz de Oliveira, é advogado.

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