São Paulo

3/5/2007
Rafael Roque Garofano

"Extra! Extra! Brasil mostra sua cara! Um absurdo! Estas foram as palavras que serviram para expressar a indignação de centenas de pessoas que aguardavam - famintas para digerir talvez as primeiras horas de cultura gratuita de suas vidas - a distribuição de ingressos para a II Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, que está sendo realizada no Centro Cultural São Paulo e nas ruas da capital do Estado, no período de 30/4 a 6/5/07. A abertura oficial do evento, que ocorreu no feriado do 'dia do trabalho' (1/5), às 20h, e contou com a presença de ministros, embaixadores e representantes das instituições culturais dos países participantes, foi precedida de muito tumulto e revolta do público presente, após ter sido divulgado, pela organização do evento (Cooperativa Paulista de Teatro) que os ingressos estariam esgotados, devido ao fato de cerca de 40% (quarenta por cento) dos lugares estarem reservados para convidados VIPs, pertencentes ao próprio meio teatral, em uma clara apropriação de espaço concedido ao público. A apresentação do dia, da qual muitos brasileiros foram privados de assistir - em benefício da sempre minoria de privilegiados - ficou a cargo de um dos principais grupos de teatro cubano da atualidade (Teatro Buendía), que pela primeira vez se apresentou em São Paulo. No espetáculo Charenton, 19 integrantes do grupo exibiram (embora não tenhamos visto) uma ópera bufa criada a partir do Marat-Sade, de Peter Weiss. As explicações vieram após o início do espetáculo, por um representante da organização do evento, que se auto intitulava 'ex-palhaço' de rua, e foi mais ou menos nesses termos: 'Pessoal, nós gostaríamos muito que todos pudessem entrar para assistir ao espetáculo, porém, mesmo (nós) sendo contrários ao chamado Teatro Comercial, o fato é que o evento só está acontecendo por causa dele, e temos que retribuí-lo de alguma forma...'. Apesar da lamentável justificação dada pelo representante da Mostra, demonstrando a clara submissão da nossa cultura aos interesses econômicos dominantes, não se pode questionar que a 2ª edição do evento foi organizada para superar obstáculos e criar elos culturais entre o Brasil e a América Hispânica, diante da gritante barreira histórica que isola o Brasil do restante dos países latino-americanos quando o assunto é cultura. Sabemos que tal distanciamento cultural é proveniente tanto do período pré-colonial quanto do processo de redemocratização globalizada desses países, que faz com que cidades como Nova York, por exemplo, exerçam maior influência cultural sobre a população nacional do que os traços indígenas de nossos hermanos do Peru, ou do que a concepção diferenciada de vida social no caso Cubano. Ocorre que, e ao que tudo indica, e diante de fatos como os que ora narramos, ao invés de vir aproximar culturalmente países já vizinhos no território, a II Mostra Latino-americana de Teatro de Grupo veio mesmo para afirmar nossas diferenças. Em território tupiniquim, a questão é deixar bem claro para todos, e de uma vez por todas, que a 'nossa' República tem dono sim (!), e, ao contrário do que o significado do termo possa sugerir, o proprietário, definitivamente, não é o povo brasileiro."

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