Desamor paterno 2/3/2006 Wilson Silveira - CRUZEIRO/NEWMARC PROPRIEDADE INTELECTUAL "Diz-se do pelicano que ele é o símbolo do amor paterno. Isso porque, ao que consta, todos os dias sai em busca de comida para os filhotes ainda no ninho e, quando volta, abre a boca e os filhotes se alimentam do que o pai encontrou, dentro de seu papo. E, dizem, quando o pelicano pai não consegue nada, e volta de mãos abanando para casa, mesmo assim oferece aos filhotes a boca aberta, para que se alimentem, sem saber, da carne de seu próprio papo. O exemplo não tem a ver, é claro, com a vida humana, cuja realidade nem sempre se assemelha. Exemplo disso são as notícias sobre a recente decisão da 4ª Turma do Superior Tribunal de Justiça que concedeu 'habeas corpus' a um professor aposentado, portador do vírus da Aids. O professor, portador do vírus da Aids desde 1990, precisa se submeter, todos os meses, a tratamento médico, que lhe consome praticamente toda a pensão de aposentado. Mal consegue ele fazer frente às suas necessidades básicas. Com o filho vivendo nesta situação, o pai do professor, que de pelicano não tem nada, entrou em juízo, em 2004, com uma ação de alimentos, alegando não ter condições de prover seu próprio sustento. De pronto, provisoriamente, sem análise do mérito, a 5ª Vara da Família e Sucessões do Foro Central de São Paulo - pois que não é sempre que a Justiça é lenta - ordenou que os filhos (posto que a ação era contra o professor e um irmão seu abastado), que ambos pagassem R$ 2 mil, mensalmente, como auxílio ao pai. Nos autos o professor disse não ter condições para o pagamento e afirmou que o pai não necessitava da pensão, eis que residia em imóvel avaliado em R$ 250 mil. Mas o pai - exemplo de paternidade - executou o débito referente à pensão não paga e requereu a prisão civil do próprio filho, a qual foi, pela mesma 5ª Vara da Família, imediatamente decretada, por 30 dias. Essa situação se prolongou até que o caso foi julgado pelo STJ, que concedeu habeas corpus ao professor e ordenou que o outro filho, com condições, arcasse com a pensão. Se esse caso não é um exemplo de amor paterno, certamente é de como a Justiça, às vezes, é cega de verdade, já que esse caso poderia ter sido solucionado pela primeira instância, sem causar o constrangimento desnecessário a alguém que já tem uma vida suficientemente difícil." Envie sua Migalha