Francisco Petros*
As “férias” do mercado
Esta percepção não nos parece equivocada, mas precisa ser qualificada. No que se refere ao crescimento é preciso que fique claro que este tem duas características básicas: (1) a base de comparação (o ano recessivo de 2003) favorece a que os indicadores sejam mais expressivos. Por exemplo: o nível de vendas do varejo em julho (dados do IBGE) cresceu “expressivos” 12% em relação ao mesmo mês do ano passado (o mês mais fraco de 2003); (2) o desempenho do agro-negócio e das exportações está muito bom, acima das expectativas e favorecido por preços externos favoráveis e abertura de novos mercados. Finalmente, depois de muitos anos temos resultados da balança comercial que dão segurança ao nosso balanço de pagamentos.
No que se refere aos riscos externos, estes não são nada desprezíveis, mas ganhamos um tempo precioso para avançarmos nas reformas. Há sinais de enfraquecimento da economia norte-americana e isso pode contribuir para que as taxas de juros externas permaneçam baixas por mais tempo que o inicialmente era esperado pelos agentes. Para países como o Brasil, altamente dependentes de fluxos internacionais para se financiar, a continuidade da fartura de liquidez externa é um ótimo sinal.
Se no curto prazo os sinais são mais promissores, no médio (06 meses) e longo prazo (12 a 24 meses) o cenário é opaco. Isso não quer dizer que será ruim. Quer dizer que é muito incerto e pautado por variáveis difíceis de se prever. Se o leitor se defrontar com economistas, analistas ou outro qualquer com convicções muito sólidas sobre o que acontecerá no médio e longo prazo, escute-os com atenção, mas não leve muito a sério o que leu ou ouviu. Como é que alguém pode prever como será a política econômica de Bush ou Kerry? Ou, qual será a cotação do petróleo daqui a semanas ou meses? Ou, elaborar uma previsão sobre os riscos geopolíticos?
Do meu ponto de vista, só há um modo de se comportar neste contexto no que se refere aos investimentos. É cuidar mais dos “processos” dos que das “previsões”. O que significa isso? Essencialmente, trata-se de analisar os fundamentos presentes nos mercados e nas economias e procurar discernir sobre suas tendências sem querer adivinhar os fatos, os preços futuros e assim por diante. Avaliar tendências também é uma atividade difícil, mas por não ser pretensiosa quanto à necessidade de se fazer previsões, permite que correções de rumo sejam feitas ao longo do tempo e mantém a liberdade intelectual para mudar de opinião a qualquer tempo. “Se os fatos mudam, mudo de opinião”, dizia Lord Keynes.
No geral, no mercado financeiro e de capital, os “jogadores” acreditam que o conhecimento das “regras” do mercado - ferramentas de análise, acesso fácil a uma quantidade enorme de informações, equipes de especialistas, etc. - os tornam “bons jogadores”. É como se alguém que conheça com profundidade as regras de pôquer se considere um bom jogador de pôquer. Duas coisas muito diferentes.
Os diversos segmentos do mercado financeiro têm mais variáveis aleatórias que inicialmente se imagina. Sendo assim, é mais importante acompanhá-las e entendê-las do que prevê-las.
Considerando-se o acima exposto - no que diz respeito à forma de se avaliar investimentos e se posicionar no mercado - as variáveis externas recomendam redobrada cautela. As variáveis internas um certo otimismo. Do lado externo, os dois principais riscos são (1) a evolução dos preços do petróleo e (2) as incertezas sobre a política monetária e fiscal dos EUA; do lado interno as duas principais variáveis são (1) o nível de investimentos necessário para que exista crescimento sustentado e (2) a implementação de reformas mais profundas pelo governo e pelo Congresso, depois das eleições municipais de outubro.
Acredito que até meados de setembro, o comportamento e os preços dos ativos permanecerá sem tendência definida. Haverá, até mesmo, uma sensação de que nada estar a acontecer. O mercado está de férias.
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petros@migalhas.com.br
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